O Programa de Conservação do Gavião-real (PCGR) do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) iniciou suas atividades de pesquisa em 1997 após a descoberta do primeiro ninho de gavião-real (Harpia harpyja), com casal e filhote no ninho, numa floresta de terra-firme, região próxima a Manaus. Em 1999, estabeleceram-se metas para ampliar a localização e o mapeamento de ninhos para estudar a biologia da espécie na Amazônia Brasileira com a participação de voluntários dispostos a enfrentar o desafio de conservar esta espécie na região.

Em 2005, com o registro de ninho de gavião-real na Mata Atlântica (RPPN Estação Veracel, Bahia), o PCGR estabeleceu metas de localizar outros ninhos na região e um trabalho de busca por ninhos no dossel da Mata Atlântica foi iniciado com o Projeto Harpia Mata Atlântica.

Em 2008, um ninho localizado por birdwatcher na Floresta Nacional de Carajás-Pará permitiu ao Programa o registro inédito para o Brasil de informações sobre reprodução e alimentação de um casal de gavião-real na natureza. Os eventos foram acompanhados por biólogos do Programa e documentados em video e imagens publicadas no livro-documentário fotográfico Harpia, do fotógrafo-jornalista João Marcos Rosa.

 

Hoje o Programa conta com o apoio de parceiros, voluntários, estudantes e bolsistas na coleta de dados em campo, nas atividades de educação ambiental e na divulgação de informações no entorno de mais de 60 ninhos de gavião-real distribuídos nas florestas dos estados do Acre, Amazonas, Amapá, Roraima, Pará, Rondônia, Mato Grosso do Sul e outros cinco ninhos no Pantanal e na Mata Atlântica.

Estabelecer um Programa Nacional de Conservação da espécie somente foi possível com a parceria de várias instituições e Ongs internacionais, nacionais e regionais. A participação ativa de comunidades que habitam a floresta no entorno das árvores com ninhos de gavião-real são também a razão do sucesso na localização de novos ninhos, na coleta de dados sobre a espécie e na sobrevivência dos filhotes até serem capazes de voar para longe em busca de outras terras. A convivência pacífica entre os comunitários e os animais da floresta é possível à medida que são apresentadas fontes alternativas de subsistência à tradicional produção agrícola e extrativista usual na região Amazônica.

Monitoramento ninho Harpia. Parintins-AM. 2007.
Monitoramento de ninho de gavião-real realizado com o apoio de
comunidades locais. Parintins-AM. 2007.

Neste sentido, a divulgação e popularização da ciência, além de atividades de educação ambiental tem favorecido a sensibilização das comunidades ribeirinhas quanto a importância do gavião-real e a manutenção da floresta do entorno do ninho. Os membros destas comunidades, pesquisadores e amadores da natureza foram e são a fonte de informações para a localização de ninhos de gavião-real nas florestas. Os registros podem ser por exemplo, oriundos da vocalização de filhotes no ninho, avistamentos de adultos voando ou caçando uma presa no dossel e ainda fotográficos. Estes registros ocorrem geralmente durante a realização de censos de mamíferos por pesquisadores, ao atravessar uma floresta para se chegar a plantações por agricultores ou nas contemplações ornitológicas dos birdwatcher. O mapeamento de ninhos na Amazônia, em muitos casos trouxe surpresas, pois ao se chegar na base da árvore de alguns destes ninhos, identificou-se que não se tratava de um ninho de gavião-real (Harpia harpyja), mas de um ninho de uiraçu-falso (Morphnus guianensis) ou de um ninho de gavião-de-penacho (Spizaetus ornatus), sendo que os registros de uiraçu-falso na natureza são tão raros quanto os do gavião-real. Nestes casos, o Programa adotou estas outras grandes águias de grande porte do Brasil e o monitoramento hoje atinge seis ninhos de uiraçu-falso e seis de gavião-de-penacho na Amazônia.